sábado, 18 de janeiro de 2014

Caminho temeroso


Temeroso é hoje o caminho que o futuro reserva à humanidade (uma humanidade que cada vez é mais desumana), mas mais tenebroso o é no que aos nossos filhos respeita.
Um destino que se prevê repleto de dificuldades e de obstáculos quase intransponíveis mercê da inexperiência que a vida hoje lhes proporciona, muito por culpa do manto protector ao qual os subjugamos.


João Salvador – 26/12/2013

Mundo dos desejos


Sigo o caminho de um destino traçado
Escolhido pelo rumo que a vida ditou
Amargurado pelas agruras sentidas
E pelas palavras que tua boca selou

Ainda assim resignado sigo pensando
No que é e não o foi …
Se o ser não é pior do que o que seria
Viajo pelas sinuosas curvas da mente

Remeto-me para uma outra dimensão
Para um mundo imaginado, onde tu habitas!
Uma constelação onde és a estrela que brilha
Onde teu corpo é meu veneno que absorvo

Local de deleite e de luxúria onde o é deixou de ser
Ali não é o foi mas o é, o agora, o já
Nesse mundo és tão real, tão minha
Toco-te, beijo-te amo-te, és mulher real!

Uma dimensão cheia de luz e esperança
Um amor cristalino vivido por nos dois
Onde os corpos se fundem num só
Onde a paixão absorve as sensações

Lugar, onde os amantes trocam carícias sem pudor
Onde suas línguas se entrelaçam
Onde os sonhos e os desejos se realizam
Um mundo apaixonado, no qual me perco!


João Salvador – 21/10/2013

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Saberá um dia a razão?


Tu, ó mulher, não perguntas o porquê?
Despreza teu orgulho a explicação
Saberás algum dia a razão
Da frígida palavra pronunciada?
Nunca saberá ele próprio a razão
Apenas que algo levou a amar-te
Sentimento hospedeiro que não extingue
Amor … memórias, palavras e dor!
Hoje a razão impera sobre os desejos da alma
Ali, escondido pela capa da desilusão,
o coração não tem lugar,
Afinal essas mesmas palavras que vos uniram
Foram as mesmas que vos separaram!
  

João Salvador – 29/12/2013

domingo, 5 de janeiro de 2014

Cegueira humana – Divagação e dissertação


Com os olhos com os quais fui brindado, vi nascer o dia, como havia visto nasceram muitos outros, este, o de hoje particularmente cinzento, triste e sem cor.
O vento combate diabolicamente os obstáculos, fustigando portas e janelas, debatendo-se corajosamente, invadindo os lares através das frinchas que lhes cedem, apoquentando o descanso das gentes.
As nuvens surgem carregadas pela negridão, prontas a desabar uma bátega tempestuosa, sobre as nossas cabeças, lembrando-nos que a natureza também se enfurece, revoltando-se contra os maus-tratos de que é sujeita. Rebentam repentinamente, largando os seus raios selváticos sobre a terra, iluminando o olhar de quem os mira, intensificando-lhe o brilho.
O olhar, presenteado pela luz dos relâmpagos, denuncia um translúcido e límpido espelho que nos transporta para a verdade escondida nos recônditos cantos da nossa alma, onde os mistérios se confundem com os sonhos irrealizados.
A visão, um bem precioso com o qual fomos coroados e que nos permite saborear as perfeições e imperfeições mundanas, a natureza e a nossa própria beleza e seus defeitos (goste-se ou não).
Através do olhar absorvemos as cores, os movimentos subtis das curvaturas suaves da nossa amada, bebemos o seu olhar que nos trespassa e arrepia, provocando-nos desejos carnais, inenarráveis, mas deliciosos.
É sobre o olhar e sobre a visão que me debruço, esse bem sensorial, que todos usamos mas nem todos o temos e utilizamos em toda a sua plenitude, olhando e vendo verdadeiramente.
Quantos não passam diariamente pelo mesmo local mirando o pedinte estropiado que sentado à porta do supermercado, jaz ali esfarrapado, lançando o chapéu roçado à frente de seus pés pedindo uma moeda para comer. Quem se preocupa em olhar nos olhos desse pedinte e lhe procura estudar a alma, o que sente esse homem, será um pedinte ou um engodo para espoliar umas moedas às almas mais sensíveis e caridosas? Estudam as suas mãos para verificar se estão maceradas de sujidade, ou demasiadamente bem tratadas para saber-se estar perante um pedinte ou um chico-esperto?
De que servem os olhos aqueles que caminham olhando mas nada enxergam, passando-lhes os pormenores ao lado, pois olham, mas não examinam, não pesquisam, não sentem com o olhar daquilo que deveriam ver e não veem.
Em bom rigor todos somos cegos, olhamos cada vez mais para o eu, para o quero, para o bem-estar pessoal. Vivemos uma espécie de cegueira onde existe apenas o eu sobrevivente que se fecha às emoções que o rodeiam, cerrando os olhos para não sermos atingidos pelo mal alheio, que tanto receio provoca na sociedade atual. Apregoamos e pronunciamos aforismos; palavras; poesias lançando belas palavras que o recetor quer ouvir, mas não aquelas que deveria ouvir. Todos querem olhar os lábios de quem amam, ou assim o pensam e ouvir a pronúncia de belos momentos que se avizinham, mas que não traduzem em atos. No fundo através da sua cegueira mental, lançam as trevas na sua alma, cegando o próprio amor que daí deveria alcançar o ser amado!
Ainda que a cegueira branca provoque o caos, ainda não entendo como seres pensantes que somos, nos deixamos contagiar.
Qual a causa para a súbita cegueira narrada por José Saramago e que procuro deslindar no meu entendimento? Entendo hoje que tal cegueira se deveu com alguma certeza, ao esvaziamento da pureza de pensamentos, dos sentimentos corrompidos, ao excesso de oferta e banalidade em que se tornaram os sentimentos, bem como pela facilidade com que se mata o apregoado amor – ou o que se julga ser esse sentimento que foi tão nobre.
Todos deambulamos por cidades, vilas e aldeias imaginárias, cheia de tudo, mas onde reina o nada, desprovidas do mais básico sentimento humano. Os pormenores, as cores, a identidade e a vida foram enfraquecendo, apagando-se como se da chama de uma vela se trata-se. Tudo porque vivemos olhando, mas nada vemos.
Hoje já não nos basta, para enchermos o peito de felicidade, o deleite com o mero sorriso de uma criança, o cumprimento de um vizinho, o abraço de um amigo, o beijo de uma mulher, isso não chega para derrubar as barreiras de uma indiferença mental e sentimental que nos está a cegar aos poucos sem nos darmos conta de tal.
Temo a queda do amor, cego por olhos que nada veem e morto por corações que não sentem!
Temo a perdição da alma, cuja cegueira apagou seus traços de humanismo, lançando-a nas trevas mais profundas dos sentimentos perdidos.
Temo esta cegueira que persegue os sentimentos, estamos a ficar cegos para o amor, aquele que serve como combustível para a vida; aquele amor que faz a engrenagem do nosso corpo funcionar, que alenta os carentes e apazigua os apaixonados.
Temo a visão de um mundo que vê hoje sem nada ver!


João Salvador – 05/01/2014



sábado, 4 de janeiro de 2014

Tu és Pedro ela Inês


Pedro vives na corte, mergulhado na obscuridade da noite
Uma vida de rebeldia num reino que jaz à deriva
Boémio, és o homem do reino, mas tu sentes-te vazio
Desconheces a natureza do amor, para além do corpo

Sacias teus pecados carnais nas damas da corte
Mas choras os pecados da alma que não sentis
Desconheceis a chama intensa do amor que alimenta
Viveis desnutridos do carinho da mulher que não vês

Percorreis vosso reino entristecido, buscando-a
Montado no cavalo vides o sol a rasgar os céus
Iluminando o caminho com uma presença angelical

Vistes a silhueta da mulher que será a salvação
O alento enche o coração, aquece o sangue, ali está Inês
A mulher que buscáveis para salvar a alma da perdição


João Salvador – 26/12/2013

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Sonhos versus realidade


Quando perseguimos um sonho devemos busca-lo com afinco e paixão, sem receio de acontecimentos vindouros ou simplesmente devemos abandona-los?
Diriam os ditos sábios que em tempos a renúncia era a maior prova de amor que se daria aquela a quem entregamos a nossa alma. Hoje após sentirmos o veneno dessa atitude pensada friamente, interrogamo-nos se a dita renúncia de amor, cujo suposto propósito é proteger quem se ama, não será proteger outros de uma dor sobre a qual não buscaram? Não será a renúncia mais do que cobardia camuflada de um alguém que matou os seus sentimentos por medo, capricho ou mesmo comodismo?
Que resta agora ao renunciante e sua musa senão vidas em dimensões que caminham paralelas, mas que se entrecruzam ocasionalmente nas ciladas da vida?
Tais encontros fortuitos ainda que não presentes no mundo real apenas aprofundam as mágoas dos seus corações já de si debilitados por um amor que implora por acontecer, mas que jaz trancado a sete chaves guardado nos confins da alma!
Não se aconselha a dor que sente quem ama verdadeiramente, antes pelo contrário não se percam em deambulações empíricas que esbarrem nos vossos sentimentos; não permitam que os matem!
Aos que vivem ainda a jovialidade e inocência de um amor puro, ainda que não se venha a revelar duradouro, vivam-no e guardem as melhores memórias desse amor tresloucado, pois serão esses retalhos de vida que alimentarão as almas carentes nos dias de melancolia, nos dias em que as lágrimas se desprendem do olhar vazio e acariciam a face esbatida; ou até nos dias de revolta!
Ainda que as dilacerantes e profundas feridas provoquem uma dor constante e intolerável; ainda que jamais sejam saradas pela substituição de outro coração; ainda que as palavras lançadas hajam sido tão poderosas e aguçadas como o gume de uma espada talhada pelo melhor ferreiro do reino da desilusão; por mais que tenhas sido premiado pelo derrubar do teu castelo encantado; ainda que nada possa ser feito para anemizar a crueldade do mundo real que te impede a felicidade … tens em ti todo um mundo por descobrir, ainda que amorfo de vida!
É nessa vida que o fantasma de ti vive e sente, ou procura sentir, ainda que sinta apenas os elementos naturais que te fustigam. Podes sempre amar o sol, o mar, o vento, a chuva, os rios, as criaturas que habitam a terra … podes sempre amar o próximo, ser solidário, amigo, camarada, podes tentar ser tu sem o ser ainda que o sejas mas com a dor escondida no teu peito cuja renúncia te cravou no peito e ali guardas no dito cofre como se de um rubi se trata-se.
Pode o coração incauto já de si maduro pela experiência da vida continuar a viver em paz? Não! Mas pode sempre viver na paz possível e no mundo que tem agora ao seu dispor, visto que a barreira que colocou a si próprio é agora inultrapassável por opção da realidade!
Aqueles que ainda não mataram os seus sonhos, procurem não o fazer, busquem a loucura, a paixão de um amor, vivam-no intensamente, vivam-no hoje e não amanhã, pois agora é tempo, logo é tarde!
Alimentem o sonho com verdade, com sinais mas sempre acompanhados por gestos e acima de tudo atitudes concretas, sentidas e vividas por quem amam, ou então viverão eternamente o dilema da renúncia ao sonho, um fantasma que corre vestido pela escuridão (carregando no seu semblante o amargo sabor da desilusão), nos pantanosos caminhos que pode tornar-se o sonho de um amor tumular.
Não matem o amor … deixem viver tão nobre sentimento e acima de tudo matem a renúncia, sentimento agridoce (ainda que mortal) mas amargo como fel!


João Salvador – 26/12/2013

sábado, 28 de dezembro de 2013

A morte também amou


A morte decidiu fazer greve, pois era incompreendida pelos seres humanos.
Da greve nasceu o caos, do caos a perdição, a desumanização a tresloucada busca pela morte além-fronteiras.
Logo se deu conta a morte (a morte singular e não a universal) que a sua missão urgia seguir.
Enviados os subscritos violetas, todos foram entregues aos malogrados padecentes.
Mas alguém teimava em não o receber, logo se pensou, não queria morrer?
A morte encarregou-se pessoalmente do violoncelista, mas caiu nas malhas do amor e a partir daquele dia mais ninguém morreu.
O caos regressou? A perdição, a tresloucada busca pela morte como pacificação da alma? O descanso eterno? A morte não se poderia render ao amor … mas fê-lo!
Até a própria morte no seu salão frio, abandonou a foice, ultrapassou o umbral da porta e revestiu o esqueleto de uma carcaça de fêmea humana para seduzir, mas acabou seduzida, perdendo o tino e a razão.
Desde esse dia no país imaginário a morte deixou de cumprir a sua missão pois a sua razão foi embriagada pelo coração!
Não se consta (nem conheço) que haja capítulos subsequentes escritos por Saramago, onde se refira que Deus exorte a morte (com letra minúscula) à razão, o que seria incompreensível, apesar da autonomia da morte sem ela não existiria ressurreição, logo não haveria religião!
A morte é uma marca que nasce já em vida, logo não pode imiscuir-se a sua missão por mais tenebrosa e aterradora que seja, assim não deveria ter-se apaixonado pelo personagem, mas ainda assim contra a sua natureza fê-lo e amou-o de corpo e alma, desconhecendo-se qual o rumo da morte e do amor que partilhou. Todos podem amar, mas não a morte que de tão fria e aterradora mata só com o seu olhar fulminante!
Se a morte amou, porque não amam aqueles seres humanos, frios, calculistas, desprovidos de sentimentos? Serão eles a encarnação em vida da morte, não do corpo mas do sentimento? Sim porque essa morte deve ser também ela preocupante ou talvez mais, já que a morte corporal é já de si uma certeza aquando da gestação.
Acredito veementemente que esses mortos-vivos para o sentimento mais belo que é o amor, também podem ressuscitá-lo da profundidade obscura da alma, onde o encerram, guardado por correntes de aço, praticamente inacessíveis.
A morte mata o amor de muitos padecentes, mas mais tenebroso é a morte do amor produzida por muitos humanos morto-vivos, que percorrem os caminhos da sua inócua vida quais fantasmas, sem sentirem o calor do amor que rejeitaram!

João Salvador – 28/12/2013

In: Visão comentada da obra as Intermitência da Morte de José Saramago 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Pássaro ferido


Sois pássaro ferido,
Voais sem rumo no vasto céu da incerteza,
Oscilais perdido,
procurando um destino!
Cortais com vossas asas esbeltas,
decoradas com cores tropicais,
os ares da terra que abraçais,
e o solo que contemplais.
Visionais os mantos verdes dos prados,
Ofegais pensativo,
rendido ao pensar
absorvido pela paz que vos traz o leito do rio.
Sentis liberdade na vastidão dos céus
que vos envolvem carinhosamente
como uma mãe que aconchega seu filho.
Aqui abraça-vos a mãe natureza
Libertadora de todos os tormentos,
Sois hoje um pássaro livre …
Voai, voai, alcançai a imortalidade
Vivei …
Experimentai o gosto da liberdade!


João Salvador – 26/12/2013

Renasceu no mar o sentir


Ondulam as ondas do mar
Como ondulam os pensamentos
Divagam pela imensidão do mar
Como o fazem na imensidão de mim

Águas agitadas embatem nas rochas
Como a dor que dilacera um coração ferido
Águas agitadas, turbas e misteriosas
Como o é o destino, tantas vezes tenebroso

Salpicam gotas de esperança eterna
Humedecidas pelas palavras de amor
Esperançosas e delicadas, foram pronunciadas
Numa promessa eterna testemunhada pelo mar

O mesmo mar que outrora te levou
Arrebatando-te violentamente de mim
Traz agora de volta a imagem
De um amor que um dia tragou!


João Salvador – 21/12/2013

Perdido nos pensamentos


Como em qualquer aventura
Surgem nas névoas da vida
Sentimentos de revolta
De conquista e de perda

Divagamos pela luz e pela escuridão
Umas vezes perdidos, outras não!
Navegamos vidas sonhadas …
Mas, o que importa é partir e não chegar

Chegar é o fim, partir o início …
Buscamos o desconhecido, o não vivido!
Caminhando da chegada à partida …
Num universo perdido!


João Salvador – 23/11/2013