domingo, 2 de março de 2014

Aromas perdidos


Aromas outrora perdidos,
Permeiam-me hoje com belas memórias
Resgatando no tempo o gosto de ti
Sorvo novamente teu cálice
Com sofreguidão e tesão!

Lentamente as curvas de teu corpo
São percorridas pelos meus dedos firmados
Arranhando tuas costas com deleite
Mordiscando teus seios ...
Sugando teus mamilos

O desejo carnal cega-me a alma,
Apela-me ao pecado louco!
Esqueço o purgatório da vida real
Lanço-me no inferno quente de teu ventre

Afundo-me com avidez no prazer
Ofereço-te meu falo que tragas
Enlouquecendo-nos de prazer!
Desvairados e ensandecidos.

Abandonados nos delírios dos corpos suados
Em movimentos ritmados,
Fundimos dois corpos num,
Investindo delicadamente
Sentindo gemidos crescentes
Que apenas se calam
Com a explosão no auge da paixão!


João Salvador – 18/01/2014

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Sente o que sente o poeta


Esqueço hoje a desilusão, quero vida!
Recordo apenas a alegria do beijo roubado
Do calor do teu corpo húmido e quente
Dos corpos enlaçados que se amaram

Busco apenas memórias fulgentes
Momentos ínfimos ou não que alimentem
Toda a alma carece de carinho e amor
Ainda que o não diga, o poeta ama e sente!

Assim o sente o leitor que se deixa absorver
Que devora cada letra, cada palavra, cada verso
Electriza os seus sentimentos vivendo as palavras
Sente as memórias de outrem como suas

Chora com o desalento …
Entristece-se com o tormento …
Alegra-se com o sorriso
Enche o coração com paixão!

Tudo devora quem sente
Sente o que compõe o poeta
Sê quem escreve,
Pois quem escreve sente!



João Salvador – 29/12/2014 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Amor cristalino

(Imagem retirada da Internet)

Deitado sobre as águas paradas
Deslizo, aconchegando meu corpo
Acariciado pela humidade sentida
Que me beija com mãos trémulas

Das profundezas do lago surges tu
Envolta num manto de amor cristalino
Desejosa em tocar meu corpo húmido
Banhado por águas translúcidas que fecundas

À superfície, sacias teus vícios nos meus
Lábios que se juntam em desmesurada paixão
Apadrinhada pela água que lava os pecados

Sobre o céu azul e tendo por lençol às águas
Perdem-se os amantes em subtis carícias desejadas
Amando-se loucamente, na urgência do agora!


João Salvador – 25/01/2014

sábado, 18 de janeiro de 2014

Iniquidade na morte do amor


Inócua é a morte em vida do amor, carregada nas almas daqueles que caminham quais fantasmas, desconhecendo o calor do sentimento rejeitado!


João Salvador – 28/12/2013

Caminho temeroso


Temeroso é hoje o caminho que o futuro reserva à humanidade (uma humanidade que cada vez é mais desumana), mas mais tenebroso o é no que aos nossos filhos respeita.
Um destino que se prevê repleto de dificuldades e de obstáculos quase intransponíveis mercê da inexperiência que a vida hoje lhes proporciona, muito por culpa do manto protector ao qual os subjugamos.


João Salvador – 26/12/2013

Mundo dos desejos


Sigo o caminho de um destino traçado
Escolhido pelo rumo que a vida ditou
Amargurado pelas agruras sentidas
E pelas palavras que tua boca selou

Ainda assim resignado sigo pensando
No que é e não o foi …
Se o ser não é pior do que o que seria
Viajo pelas sinuosas curvas da mente

Remeto-me para uma outra dimensão
Para um mundo imaginado, onde tu habitas!
Uma constelação onde és a estrela que brilha
Onde teu corpo é meu veneno que absorvo

Local de deleite e de luxúria onde o é deixou de ser
Ali não é o foi mas o é, o agora, o já
Nesse mundo és tão real, tão minha
Toco-te, beijo-te amo-te, és mulher real!

Uma dimensão cheia de luz e esperança
Um amor cristalino vivido por nos dois
Onde os corpos se fundem num só
Onde a paixão absorve as sensações

Lugar, onde os amantes trocam carícias sem pudor
Onde suas línguas se entrelaçam
Onde os sonhos e os desejos se realizam
Um mundo apaixonado, no qual me perco!


João Salvador – 21/10/2013

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Saberá um dia a razão?


Tu, ó mulher, não perguntas o porquê?
Despreza teu orgulho a explicação
Saberás algum dia a razão
Da frígida palavra pronunciada?
Nunca saberá ele próprio a razão
Apenas que algo levou a amar-te
Sentimento hospedeiro que não extingue
Amor … memórias, palavras e dor!
Hoje a razão impera sobre os desejos da alma
Ali, escondido pela capa da desilusão,
o coração não tem lugar,
Afinal essas mesmas palavras que vos uniram
Foram as mesmas que vos separaram!
  

João Salvador – 29/12/2013

domingo, 5 de janeiro de 2014

Cegueira humana – Divagação e dissertação


Com os olhos com os quais fui brindado, vi nascer o dia, como havia visto nasceram muitos outros, este, o de hoje particularmente cinzento, triste e sem cor.
O vento combate diabolicamente os obstáculos, fustigando portas e janelas, debatendo-se corajosamente, invadindo os lares através das frinchas que lhes cedem, apoquentando o descanso das gentes.
As nuvens surgem carregadas pela negridão, prontas a desabar uma bátega tempestuosa, sobre as nossas cabeças, lembrando-nos que a natureza também se enfurece, revoltando-se contra os maus-tratos de que é sujeita. Rebentam repentinamente, largando os seus raios selváticos sobre a terra, iluminando o olhar de quem os mira, intensificando-lhe o brilho.
O olhar, presenteado pela luz dos relâmpagos, denuncia um translúcido e límpido espelho que nos transporta para a verdade escondida nos recônditos cantos da nossa alma, onde os mistérios se confundem com os sonhos irrealizados.
A visão, um bem precioso com o qual fomos coroados e que nos permite saborear as perfeições e imperfeições mundanas, a natureza e a nossa própria beleza e seus defeitos (goste-se ou não).
Através do olhar absorvemos as cores, os movimentos subtis das curvaturas suaves da nossa amada, bebemos o seu olhar que nos trespassa e arrepia, provocando-nos desejos carnais, inenarráveis, mas deliciosos.
É sobre o olhar e sobre a visão que me debruço, esse bem sensorial, que todos usamos mas nem todos o temos e utilizamos em toda a sua plenitude, olhando e vendo verdadeiramente.
Quantos não passam diariamente pelo mesmo local mirando o pedinte estropiado que sentado à porta do supermercado, jaz ali esfarrapado, lançando o chapéu roçado à frente de seus pés pedindo uma moeda para comer. Quem se preocupa em olhar nos olhos desse pedinte e lhe procura estudar a alma, o que sente esse homem, será um pedinte ou um engodo para espoliar umas moedas às almas mais sensíveis e caridosas? Estudam as suas mãos para verificar se estão maceradas de sujidade, ou demasiadamente bem tratadas para saber-se estar perante um pedinte ou um chico-esperto?
De que servem os olhos aqueles que caminham olhando mas nada enxergam, passando-lhes os pormenores ao lado, pois olham, mas não examinam, não pesquisam, não sentem com o olhar daquilo que deveriam ver e não veem.
Em bom rigor todos somos cegos, olhamos cada vez mais para o eu, para o quero, para o bem-estar pessoal. Vivemos uma espécie de cegueira onde existe apenas o eu sobrevivente que se fecha às emoções que o rodeiam, cerrando os olhos para não sermos atingidos pelo mal alheio, que tanto receio provoca na sociedade atual. Apregoamos e pronunciamos aforismos; palavras; poesias lançando belas palavras que o recetor quer ouvir, mas não aquelas que deveria ouvir. Todos querem olhar os lábios de quem amam, ou assim o pensam e ouvir a pronúncia de belos momentos que se avizinham, mas que não traduzem em atos. No fundo através da sua cegueira mental, lançam as trevas na sua alma, cegando o próprio amor que daí deveria alcançar o ser amado!
Ainda que a cegueira branca provoque o caos, ainda não entendo como seres pensantes que somos, nos deixamos contagiar.
Qual a causa para a súbita cegueira narrada por José Saramago e que procuro deslindar no meu entendimento? Entendo hoje que tal cegueira se deveu com alguma certeza, ao esvaziamento da pureza de pensamentos, dos sentimentos corrompidos, ao excesso de oferta e banalidade em que se tornaram os sentimentos, bem como pela facilidade com que se mata o apregoado amor – ou o que se julga ser esse sentimento que foi tão nobre.
Todos deambulamos por cidades, vilas e aldeias imaginárias, cheia de tudo, mas onde reina o nada, desprovidas do mais básico sentimento humano. Os pormenores, as cores, a identidade e a vida foram enfraquecendo, apagando-se como se da chama de uma vela se trata-se. Tudo porque vivemos olhando, mas nada vemos.
Hoje já não nos basta, para enchermos o peito de felicidade, o deleite com o mero sorriso de uma criança, o cumprimento de um vizinho, o abraço de um amigo, o beijo de uma mulher, isso não chega para derrubar as barreiras de uma indiferença mental e sentimental que nos está a cegar aos poucos sem nos darmos conta de tal.
Temo a queda do amor, cego por olhos que nada veem e morto por corações que não sentem!
Temo a perdição da alma, cuja cegueira apagou seus traços de humanismo, lançando-a nas trevas mais profundas dos sentimentos perdidos.
Temo esta cegueira que persegue os sentimentos, estamos a ficar cegos para o amor, aquele que serve como combustível para a vida; aquele amor que faz a engrenagem do nosso corpo funcionar, que alenta os carentes e apazigua os apaixonados.
Temo a visão de um mundo que vê hoje sem nada ver!


João Salvador – 05/01/2014